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Editora: 12min
Antes de entender o que aconteceu nesta semana, vale entender duas engrenagens que aparecem — uma de forma explícita, outra invisível — na fatura de energia de todo brasileiro.
A primeira é a bandeira tarifária. Criada pela Aneel, a Agência Nacional de Energia Elétrica, em 2015, ela funciona como um sinalizador: mostra, mês a mês, quanto está custando gerar a energia consumida no país. Quando chove bem e os reservatórios das hidrelétricas estão cheios, a geração é barata e a bandeira fica verde, sem cobrança extra. Quando os reservatórios baixam, é preciso acionar usinas termelétricas, que queimam combustível e custam mais caro — e esse custo adicional aparece na conta de todos os consumidores ligados ao Sistema Interligado Nacional, a malha que conecta a geração e o consumo de quase todo o país. A bandeira amarela cobra um adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. A vermelha, em dois patamares, cobra R$ 4,46 e R$ 7,87.
A segunda engrenagem é o curtailment, o corte forçado na geração. A eletricidade não pode ser armazenada em larga escala: o sistema precisa manter, a cada instante, o equilíbrio entre o que é produzido e o que é consumido. Como a geração solar e eólica depende do sol e do vento — e não da hora em que as pessoas ligam o chuveiro —, há momentos em que se produz mais energia do que o sistema consegue absorver. Aí o Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, precisa mandar desligar geradores. É a única ferramenta que ele tem para ajustar oferta e demanda.
É no encontro dessas duas engrenagens que está a notícia desta semana.
Na sexta-feira (28), a Aneel anunciou que a bandeira de setembro seguirá amarela. É o quinto mês consecutivo: de janeiro a abril a bandeira esteve verde, e a cobrança adicional foi acionada em maio, com o início do período seco. Segundo a agência, a sinalização "reflete condições menos favoráveis de geração de energia no País, com necessidade de utilização de fontes de geração com custos mais elevados".
O detalhe curioso é que a situação hidrológica não é ruim. Segundo dados do ONS citados pelo Estadão, o volume de água que chegou aos reservatórios em agosto ficou em 243% da média histórica, e o subsistema Sul está com 93,6% de sua capacidade de armazenamento. A bandeira amarela reflete justamente a melhora dessa condição — a projeção inicial da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, no fim de maio, era de bandeira vermelha patamar 1. Hoje a CCEE projeta amarela até novembro e verde a partir de dezembro, com o fim do período seco.
Só que a bandeira é apenas uma das camadas. Na segunda-feira anterior (24), a Aneel aprovou o reajuste tarifário anual da Equatorial Maranhão, que atende cerca de 2,88 milhões de unidades consumidoras. Para os residenciais, o aumento é de 5,20%; o efeito médio, de 5,76%. Segundo a agência, o reajuste foi influenciado principalmente pelos custos de aquisição e transporte de energia, além de encargos e impostos setoriais.
Ou seja: enquanto a bandeira permanece parada no mesmo patamar há cinco meses, a tarifa-base sobe por baixo dela. E os encargos setoriais que a agência cita têm um componente específico que conecta essa conta à outra ponta da história.
No domingo (23), o ONS acionou pela segunda vez um mecanismo para reduzir o descompasso entre geração e consumo, atingindo a geração distribuída — os painéis solares instalados em telhados de casas, comércios e propriedades rurais.
Os cortes não são novidade. Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que já são rotina no sistema brasileiro, mais frequentes nas horas de maior geração solar e nos fins de semana, quando a demanda cai com a redução das atividades comerciais e industriais. Segundo Roberto Brandão, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, mesmo quando o operador reduz ao mínimo as usinas que controla diretamente, ainda pode sobrar oferta: "Corta eólica, corta solar, centralizada".
A escala é o que impressiona. Em 2025, o Brasil descartou 20% da energia produzida por usinas eólicas e fotovoltaicas centralizadas. Segundo a consultoria Volt Robotics, isso gerou prejuízos estimados em R$ 6,5 bilhões para as geradoras. E o ONS projeta, no seu Plano da Operação Energética divulgado em julho, que os cortes continuarão expressivos, embora declinantes, até o fim da década.
A causa é a expansão da oferta sem demanda equivalente. Nos últimos dez anos, a capacidade da geração distribuída em telhados cresceu mais de 800%; a centralizada, em parques eólicos e fotovoltaicos, mais de 500%. E especialistas ligam esse ritmo aos incentivos. "Essas expansões ocorrem deslocadas de sinais econômicos que reflitam as reais necessidades físicas do sistema energético", diz Luiz Barroso, CEO da consultoria PSR. Pelo "Subsidiômetro" da Aneel, os subsídios à geração distribuída somaram R$ 17,1 bilhões em 2025, e os da geração solar e eólica centralizada, R$ 14,7 bilhões. Esses recursos são recolhidos nas tarifas pagas pelos consumidores.
O caminho até a conta de luz passa pela Conta de Desenvolvimento Energético, encargo que financia políticas públicas do setor. Clauber Leite, do Instituto E+ Transição Energética, aponta o tamanho da conta: a Aneel estimou a CDE em R$ 52,7 bilhões para 2026, dos quais a maior parte é paga diretamente via tarifa. "A parte ligada à expansão da GD e a outros subsídios é o ponto mais sensível do debate, porque transfere custos para consumidores que, muitas vezes, não têm condições de instalar painéis", diz ele.
Há ainda uma assimetria apontada por Barroso: no exterior, quem tem geração distribuída é cortado da rede quando há sobreoferta e fica exposto à variação de preços; no Brasil, ele é protegido. Para o professor Nivalde de Castro, do Gesel-UFRJ, o excesso de subsídios fez o governo perder o protagonismo no planejamento: "O governo deixou de ter ingerência na expansão da geração solar".
Duas forças podem alterar esse quadro nos próximos meses.
A primeira é a demanda. O ONS estima que a carga de energia no Brasil crescerá 5,9% em setembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Demanda maior significa mais espaço para absorver a geração renovável — e menos necessidade de corte.
A segunda é o clima. O El Niño, aquecimento das águas do Pacífico associado a alterações climáticas em todo o planeta, deve trazer chuvas acima da média no Sul e abaixo no Norte e no Nordeste a partir de outubro, segundo o Inmet. Pela previsão do setor citada pelo Estadão, será o maior El Niño da história, com 95% de probabilidade de impacto forte entre outubro e dezembro; o Centro de Previsão Climática da agência americana NOAA calcula 69% de chance de ser o mais intenso desde 1950.
O efeito é ambíguo. Menos água nos reservatórios do Norte e do Nordeste pressiona a geração hidrelétrica, e o calor aumenta o consumo com ar-condicionado. Mas o próprio ONS afirma haver "expectativa de predomínio de céu claro e intensificação dos ventos no Nordeste, favorecendo a geração solar fotovoltaica e eólica" — ou seja, o cenário pode dar vazão justamente à energia que hoje é descartada. "Vamos ter uma oferta menor de água, e aí vamos utilizar os recursos eólicos para normalmente salvar o sistema", diz Elbia Gannoum, presidente da Abeeólica, a associação do setor eólico.
O governo já se moveu. Em julho, o Ministério de Minas e Energia antecipou para setembro a entrada em operação de cinco termelétricas previstas para os anos seguintes, o que agrega 1,8 gigawatt de potência ao sistema. As distribuidoras reforçam planos de contingência, e a Aneel comunicou ao Tribunal Superior Eleitoral que o setor está em cenário de contingenciamento. O diretor-geral da agência, Sandoval Feitosa, disse não ver risco para as eleições: "Claro, temos ainda um mês e meio".
A preocupação de especialistas está mais adiante. Reservatórios que não se recuperem no período chuvoso podem deixar o sistema em situação mais difícil no início de 2027.
O ponto de acompanhamento mais direto é o boletim mensal da Aneel sobre a bandeira tarifária. O próximo, em outubro, dirá se a projeção de bandeira verde a partir de dezembro se confirma — e é o indicador mais rápido de alívio ou aperto na sua conta. Mas ele não conta a história inteira: a bandeira pode ficar parada enquanto o reajuste tarifário anual da sua distribuidora sobe por baixo, como aconteceu no Maranhão. Vale saber quando cai o reajuste da concessionária da sua região, porque é ali que o aumento estrutural aparece.
O segundo ponto é o seu próprio perfil de consumo. Como os cortes de geração se concentram nas horas de maior sol e nos fins de semana, quando comércio e indústria param, o descompasso é de horário, não de volume. Isso está por trás de propostas em discussão — a Abeeólica defende sinais econômicos horários nas tarifas das distribuidoras, ou seja, preços que variem conforme a hora do dia. Se isso avançar, consumir nos horários de sobra deixa de ser detalhe e vira economia.
Para quem tem ou pensa em instalar painéis solares, há algo específico a entender. O Marco Legal da Geração Distribuída, de 2022, garantiu a quem solicitou o serviço até janeiro de 2023 a isenção do custo de distribuição até 2045; quem aderiu depois entra em regras de transição, com cobrança gradual pelo uso da rede. Esse benefício reduz sua conta, mas seu custo aparece na fatura de quem não tem painéis — e é exatamente esse arranjo que está sob pressão. Barroso sugere que geradores distribuídos sejam chamados a instalar baterias próprias, para reduzir a oferta à rede nos horários de pico. Não é regra hoje, mas é o tipo de mudança que pode alterar a conta de quem investir agora.
Por fim, vale observar os leilões de armazenamento em baterias, com os primeiros programados para dezembro. O ONS afirma que os cortes seguirão necessários mesmo com eles, e que a redução dependerá também da entrada de novas cargas eletrointensivas, como data centers. Ou seja: o desfecho desse paradoxo depende menos de gerar mais energia limpa e mais de encontrar quem a consuma — ou de guardá-la para quando alguém precisar.
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